terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

DE ONDE VEIO ESSE GENTÍLICO PENDENCIANO, PARA QUEM MORA EM PENDÊNCIAS-RN?

 Professor Neto Barbosa

Existe algo estranho acontecendo com a forma como nomeamos nossa identidade. Em nome de uma suposta padronização linguística, estão tentando nos empurrar goela abaixo um gentílico que não nasce do povo, mas de um molde artificial: pendenciano. E aí surge a pergunta inevitável — se aceitarmos isso, então teremos também altorodrigano, macauano, assuano, afonso bezerrano, carnaubano?

Porque se a lógica for essa, todos os municípios da região deveriam seguir o mesmo padrão. Mas não seguem — e não devem seguir.

Quando se fala em quem nasce em Pendências, o que está em jogo não é apenas gramática. É cultura. É memória coletiva. É pertencimento. Gentílico não é só uma palavra: é identidade social.

O problema da masculinização cultural

A imposição de pendenciano revela um fenômeno curioso: a masculinização forçada do gentílico. Uma palavra rígida, pesada, pouco orgânica, que não dialoga com a oralidade popular. Ao adotar esse formato, quebram-se regras culturais e sociais que sempre respeitaram as particularidades de cada município.

Veja os vizinhos:

  • Quem nasce em Alto do Rodrigues é altorodriguense.

  • De Macau, macauense.

  • De Assú, assuense.

  • De Afonso Bezerra, afonso-bezerrense.

  • De Carnaubais, carnaubaense.

Todos preservam uma musicalidade própria, nascida do uso popular. Nenhum precisou de intervenção artificial para existir.

Uma palavra sem raiz na história local

O mais contraditório é que o próprio nome Pendências não tem origem portuguesa formal. Ele nasce do cotidiano cultural: das lutas, das contendas, das disputas que marcaram a formação do território. A tradição oral conta que a região era dividida em três partes:
Pendências de baixo (Rocas), Pendências do meio e Pendências de cima.

Daí o “S” final — um plural histórico, simbólico, coletivo. O nome já nasce plural, carregado de vivência social. Não é apenas topônimo, é narrativa.

Transformar isso em pendenciano é tentar singularizar o que nasceu plural.

A violência simbólica dos eventos oficiais

Por isso causa indignação quando, em eventos oficiais, nos chamam de pendencianos. Não é apenas uma escolha lexical: é uma ruptura com a cultura local. É o Estado nomeando o povo sem escutá-lo.

A língua viva não se constrói em decreto nem em manual — se constrói na boca do povo.

E a pergunta que ninguém responde

Se aceitarmos “pendenciano”, surge o dilema inevitável:
Como chamar a mulher que mora em Pendências?

Seria a pendenciano?
Ou seria pendenciense, que naturalmente se adapta ao feminino e preserva a fluidez da língua?

Essa dúvida expõe a fragilidade da imposição. Gentílicos que não dialogam com o feminino, com a oralidade e com a tradição dificilmente se sustentam culturalmente.

Identidade não se inventa — se respeita

No fundo, a discussão não é linguística. É cultural. É política. É simbólica.
Nomear um povo é reconhecer sua história — ou apagá-la.

Gentílico não nasce em gabinete. Nasce na feira, na escola, na conversa de calçada, na memória afetiva de quem pertence ao lugar.

E enquanto houver gente que valoriza a identidade local, a pergunta continuará ecoando:
Quem decidiu que somos pendencianos — e por quê?

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