Professor Neto Barbosa
Existe algo estranho acontecendo com a forma como nomeamos nossa identidade. Em nome de uma suposta padronização linguística, estão tentando nos empurrar goela abaixo um gentílico que não nasce do povo, mas de um molde artificial: pendenciano. E aí surge a pergunta inevitável — se aceitarmos isso, então teremos também altorodrigano, macauano, assuano, afonso bezerrano, carnaubano?
Porque se a lógica for essa, todos os municípios da região deveriam seguir o mesmo padrão. Mas não seguem — e não devem seguir.
Quando se fala em quem nasce em Pendências, o que está em jogo não é apenas gramática. É cultura. É memória coletiva. É pertencimento. Gentílico não é só uma palavra: é identidade social.
O problema da masculinização cultural
A imposição de pendenciano revela um fenômeno curioso: a masculinização forçada do gentílico. Uma palavra rígida, pesada, pouco orgânica, que não dialoga com a oralidade popular. Ao adotar esse formato, quebram-se regras culturais e sociais que sempre respeitaram as particularidades de cada município.
Veja os vizinhos:
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Quem nasce em Alto do Rodrigues é altorodriguense.
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De Macau, macauense.
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De Assú, assuense.
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De Afonso Bezerra, afonso-bezerrense.
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De Carnaubais, carnaubaense.
Todos preservam uma musicalidade própria, nascida do uso popular. Nenhum precisou de intervenção artificial para existir.
Uma palavra sem raiz na história local
Daí o “S” final — um plural histórico, simbólico, coletivo. O nome já nasce plural, carregado de vivência social. Não é apenas topônimo, é narrativa.
Transformar isso em pendenciano é tentar singularizar o que nasceu plural.
A violência simbólica dos eventos oficiais
Por isso causa indignação quando, em eventos oficiais, nos chamam de pendencianos. Não é apenas uma escolha lexical: é uma ruptura com a cultura local. É o Estado nomeando o povo sem escutá-lo.
A língua viva não se constrói em decreto nem em manual — se constrói na boca do povo.
E a pergunta que ninguém responde
Essa dúvida expõe a fragilidade da imposição. Gentílicos que não dialogam com o feminino, com a oralidade e com a tradição dificilmente se sustentam culturalmente.
Identidade não se inventa — se respeita
Gentílico não nasce em gabinete. Nasce na feira, na escola, na conversa de calçada, na memória afetiva de quem pertence ao lugar.
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